
A urticária é muito frequente, mas percebo no dia a dia do consultório que os pacientes muitas vezes têm dificuldade em reconhecê-la.
Além disso, apesar de manifestar na pele, muitos acreditam que se trata de alergia e que devem procurar, portanto, um alergista. Entretanto, essa é uma doença da pele – que nem sempre tem alergia como causa – e por isso, vou te contar como o dermatologista pode ajudar você!
O que é urticária?
A urticária é uma condição de pele comum, que afeta milhões de pessoas em todo o mundo.
Ela se manifesta como lesões avermelhadas, às vezes com centro pálido, elevadas (“calombos ou vergões”), de bordas bem definidas e que coçam intensamente. Podem variar muito no tamanho, podendo ser pequenos pontinhos ou até mesmo grandes placas que se unem entre si.
Uma característica muito importante que define a urticária é o tempo de manifestação: uma lesão dura menos que 24 horas. Mas não se engane pensando que o quadro de urticária sempre dura pouco tempo, pois enquanto algumas lesões vão sumindo, outras vão aparecendo em outros locais, como se elas andassem pelo corpo – o que pode durar dias, semanas, meses e até anos!
O fato da urticária poder persistir por longos períodos e apresentar uma coceira importante, faz com que seja uma doença de grande impacto na qualidade de vida de quem a manifesta.

Por que ocorre a urticária?
Existem diversas causas para a urticária e a investigação delas começa entendendo há quanto tempo elas surgiram.
Nos casos em que a doença apareceu há menos de 6 semanas, consideramos urticária aguda, e naqueles casos em que ela surgiu há mais de 6 semanas, urticária crônica.
Urticária aguda
As causas geralmente são mais facilmente identificáveis:
- alimentos: leite, ovos, frutos do mar, amendoim, nozes, soja, trigo
- medicamentos: anti-inflamatórios não esteroidais, opioides, antibióticos, aspirina
- picadas de insetos
- contato com substâncias como látex e pólen
- infecções: virais, bacterianas, parasitárias
- fatores físicos: água, suor, pressão, vibração, frio, etc
Urticária crônica
É um tipo mais complexo e, na maioria dos casos, não se consegue identificar uma causa.
É dividida em urticária crônica induzida e espontânea.
- Urticária crônica induzida: desencadeada por estímulos específicos e identificáveis, como pressão, atrito, frio, aumento da temperatura corporal, luz solar e água
- Urticária crônica espontânea: é o tipo mais comum de urticária com duração maior que 6 semanas. Não se encontra uma causa externa para o seu aparecimento e é associada à alteração da imunidade da pessoa
Importante ressaltar que o “emocional” pode ser gatilho e desencadear crises de urticária, entretanto é fundamental a avaliação e investigação por um médico dermatologista do que realmente existe por detrás dessas crises.
Como são as manifestações da urticária?
A apresentação da urticária é bastante característica e pode se manifestar como:

- Urticas (vergões): lesões elevadas na pele, de cor avermelhada ou rosada, com um centro mais pálido. Podem ter diferentes tamanhos e formas e muitas vezes se assemelham a picadas de inseto. Como já dito anteriormente, uma característica importante é que elas são transitórias, desaparecendo em uma área e surgindo em outra em poucas horas (geralmente menos de 24 horas)
- Coceira (prurido): é o sintoma mais comum e incômodo da urticária! A coceira pode ser tão intensa que interfere no sono e nas atividades diárias, impactando significativamente a qualidade de vida do paciente
- Inchaços (angioedema): a urticária pode ser acompanhada de angioedema, que é um inchaço mais profundo das camadas da pele, que geralmente afeta áreas como pálpebras, lábios, língua, garganta, mãos, pés e genitais. Pode ser doloroso ou causar sensação de queimação e, quando afeta a garganta ou as vias aéreas, pode ser grave e potencialmente fatal, exigindo atenção médica imediata
- Queimação ou ardor: além da coceira, alguns pacientes podem relatar uma sensação de queimação ou ardor nas áreas afetadas
Como saber se é urticária?
O diagnóstico da urticária é essencialmente clínico, ou seja, baseado na história detalhada do paciente e no exame físico.
O dermatologista fará perguntas como:
- Histórico dos sintomas: quando as lesões começaram, com que frequência aparecem, quanto tempo duram e se há coceira ou inchaço associado
- Fatores desencadeantes: se há alguma relação com alimentos, medicamentos, picadas de insetos, exposição ao frio, calor, sol, pressão, estresse ou exercícios físicos
- Histórico médico: doenças preexistentes, medicamentos de uso regular ou esporádico, histórico familiar de alergias ou doenças autoimunes
- Impacto na qualidade de vida: se a urticária afeta o sono, trabalho, escola e atividades sociais e de lazer
O exame físico consiste na observação das lesões na pele. Em alguns casos, o médico pode realizar testes simples no consultório para identificar urticárias induzidas, como o teste do dermografismo (passar um objeto rombo na pele para ver se surgem vergões) ou o teste do cubo de gelo para urticária ao frio.
Entretanto, como as lesões da urticária são muitas vezes temporárias, pode ser que no dia da consulta não estejam presentem ao exame. Por isso, sempre dou uma dica aos meus pacientes: fotografem as lesões! Usem luz natural, com foco e tragam as fotos no celular no dia da consulta! Isso ajuda muito a identificarmos o tipo de lesão, caso não haja nenhuma no dia da avaliação.
E exames? Precisa de algum complementar?
Na maioria dos casos de urticária aguda, exames complementares não são necessários, pois a condição é autolimitada e a causa é frequentemente óbvia.
Já na urticária crônica, especialmente quando a causa não é clara ou se há suspeita de uma doença subjacente, o médico pode solicitar exames para auxiliar na investigação:
- Exames de sangue: podem incluir hemograma completo, velocidade de hemossedimentação (VHS), proteína C reativa (PCR), testes de função tireoidiana, anticorpos autoimunes (como FAN) e níveis de IgE total. Esses exames podem ajudar a identificar infecções, inflamações, doenças autoimunes ou outras condições associadas
- Biópsia de pele: raramente necessária, mas pode ser considerada se o diagnóstico for incerto ou se houver suspeita de outras condições de pele que pareçam urticária
- Outros exames: dependendo da suspeita clínica, exames de fezes, urina ou outros testes específicos podem ser solicitados para investigar infecções crônicas ou doenças sistêmicas
E qual é o melhor tratamento para a urticária?
O objetivo do tratamento da urticária é o alívio dos sintomas de coceira, controlar as crises e, quando possível, eliminar a causa subjacente. O plano de tratamento é individualizado e depende do tipo de urticária (aguda ou crônica), da gravidade dos sintomas e da resposta do paciente ao que é proposto.

Medidas Gerais
Para todos os tipos de urticária, algumas medidas gerais podem ajudar a controlar os sintomas e prevenir novas crises:
- Identificação dos fatores desencadeantes: se a causa for identificada, o principal passo é evitar o contato!
- Evitar coçar: embora a coceira seja intensa, coçar pode agravar as lesões e aumentar o risco de infecções secundárias. Compressas frias e loções calmantes podem ajudar a aliviar o prurido
- Roupas leves e soltas: roupas de algodão leves e soltas pode reduzir a irritação na pele
- Banhos mornos: água morna (não quente) e sabonetes suaves podem ser mais confortáveis
- Controle do estresse: o estresse pode agravar a urticária, então técnicas de relaxamento e manejo do estresse podem ser benéficas
Tratamento Medicamentoso
Existem várias oções de classes de medicamentos que podem ser utilizados no alívio da urticária e dos seus sintomas:
- Anti-histamínicos de segunda geração: primeira linha de tratamento para a maioria dos casos de urticária. Esses medicamentos bloqueiam a ação da histamina, principal responsável pela coceira e inchaço. Eles são preferidos aos anti-histamínicos de primeira geração por causarem menos sonolência. Nos casos de urticária crônica, o médico pode prescrever doses mais altas do que o previsto em bula para um controle mais eficaz
- Corticosteroides: nos casos de urticária aguda grave ou exacerbações intensas da urticária crônica, um curso curto de corticosteroides orais pode ser prescrito pelo médico para controlar rapidamente a inflamação e os sintomas. No entanto, o uso auto-prescrito ou prolongado deve ser evitado devido aos diversos efeitos colaterais dessa medicação
- Omalizumabe: nos casos de urticária crônica espontânea que não respondem adequadamente aos anti-histamínicos em doses elevadas, o omalizumabe (anticorpo monoclonal) é uma opção de tratamento segura, eficaz e é administrado por injeção
- Imunossupressores: nos casos refratários, quando as outras opções não foram eficazes, medicamentos imunossupressores podem ser considerados, mas seu uso é mais restrito devido aos potenciais efeitos colaterais
É muito importante que o tratamento seja acompanhado por um médico especialista, que poderá ajustar as doses e os medicamentos conforme a resposta do paciente e a evolução da doença. A adesão ao tratamento e o acompanhamento regular são fundamentais para o controle da urticária e a melhoria da qualidade de vida.
A urticária, em suas diversas formas, é uma condição que pode causar grande desconforto e impactar significativamente a vida dos pacientes. No entanto, com o diagnóstico correto e um plano de tratamento adequado, é possível controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
É fundamental buscar a orientação de um dermatologista ao primeiro sinal de urticária, especialmente se os sintomas forem persistentes ou graves. A automedicação deve ser evitada, pois pode mascarar a causa real da condição ou levar a efeitos adversos.
Com a abordagem correta, é possível viver bem e sem o incômodo da urticária!

Para ler sobre outras doenças que também podem causar coceira na pele, acesse:
Referências:
Imagens criadas via IA (Gemini)
Biblioteca Virtual em Saúde MS. Urticária. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/urticaria/
ASBAI. Urticária: Tipos, sintomas, tratamento e os impactos emocionais que podem afetar a saúde mental. Disponível em: https://asbai.org.br/urticaria-tipos-sintomas-tratamento-e-os-impactos-emocionais-que-podem-afetar-a-saude-mental/
SBD. Urticária. Disponível em: https://www.sbd.org.br/doencas/urticaria/
BMJ Best Practice. Avaliação da urticária – Diagnóstico diferencial dos sintomas. Disponível em: https://bestpractice.bmj.com/topics/pt-br/210